Crônicas & Reflexões

                A nossa querida Rádio Jornal Pesqueira está completando sessenta anos. Ainda mantenho o hábito de chamá-la de Rádio Difusora. A sua construção aqui na então capital do tomate foi fruto do espírito empreendedor do Dr. F. Pessoa de Queiroz, cujo sonho de expandir a sua empresa de radiodifusão, contemplou as cidades de Caruaru, Garanhuns, Pesqueira e Limoeiro.

            Mantenho gravado na memória um programa de auditório em que ouvi, entre outros, Jackson do Pandeiro e Almira Castilho. Como eu era um garotinho, não tenho certeza se foi na inauguração ou numa festa de aniversário da mesma.

            O Brasil vivenciava os últimos tempos da Era de Ouro do Rádio, pois a chegada da televisão era questão de dias.

            A safra de bons cantores foi fortemente influenciada pelo rádio, já que para cantar, a pessoa tinha que possuir boa voz, independentemente da aparência física. Este detalhe, é claro, ajudava, mas não tanto quanto possuir uma voz bem postada e afinada.    

            O nosso município era um dos mais prósperos do interior pernambucano. Sua economia, baseada na agroindústria, gerava empregos no campo e na cidade e seus produtos, cada dia, se tornavam mais conhecidos.

            Atrevo-me a comparar a instalação da emissora do Dr. Pessoa aqui, a um casamento que deu certo, pois em Pesqueira, o romantismo e a musicalidade eram habitualmente praticados pelos poetas, cantores, músicos e seresteiros.

            Inaugurada em 15 de novembro de 1951, a ZYK-25, permitiu que os nossos artistas mostrassem seus dotes de cantores, instrumentistas, locutores, poetas e atores.

            Nos anos quarenta e cinquenta, várias cidades do interior possuíam serviços de alto-falantes. Aqui tínhamos o Serviço de Alto-Falante de Pesqueira (SAP) funcionando tal qual uma emissora de rádio, com grade de programação diária bem definida incluindo noticiários, além da parte musical com uma variada discoteca.

            Não foi por acaso que a Rádio Difusora de Pesqueira, teve em seus quadros, Laurene Martins, um dos diretores do S.A. P., que além de ter sido a primeira pessoa a falar ao microfone da emissora ainda em fase experimental, foi seu primeiro discotecário.

            Rossini Moura, de saudosa memória, foi uma das maiores expressões da radiofonia nordestina. Ele iniciou sua brilhante trajetória de locutor no serviço de Alto-Falante de Arcoverde, de onde veio para Pesqueira. Rossini fez de tudo um pouco não só aqui, mas em todos os lugares para onde a empresa o requisitou.

            Nelson Valença, ao assumir a gerência, estabeleceu critérios rigorosos no processo de escolha dos locutores, razão pela qual a emissora conseguiu ao longo dos anos, servir de laboratório para talentos, muitos dos quais, mais tarde, trabalharam nas mais importantes emissoras do país.

            Assim, a nossa Rádio Jornal vem tendo ao longo dos anos, importante papel na divulgação nosso município e da região e ao mesmo tempo servindo de escola para centenas de profissionais ligados à música e às atividades radiofônicas.

            Aos componentes da emissora, envio os meus parabéns, também extensivos a todos os demais dessa empresa que há sessenta anos faz parte da família pesqueirense.

   Já disseram que voltar é uma forma de renascer e que ninguém se perde no caminho da volta. É uma verdade. Incontestável.

   E quando se volta para a própria casa onde nascemos ou vivemos a  infância e adolescência, a emoção é grande demais. Enorme. Não importa o motivo das partidas. O importante é fazer o caminho de volta. A volta ao verdadeiro solo pátrio, ao convívio dos familiares e amigos. Que emoção pisar o solo da Mãe Terra! E emoção das emoções é entrar na velha casa, naquela casa impregnada de tantas emoções, saudades, lembranças, sentimentos.

 

   Nada se compara à emoção da volta, seja em que circunstância se dê essa volta. Nada se  compara ao prazer de sentar na velha cadeira de balanço gemedeira, de deitar na velha cama com o colchão já gasto, de pegar nos velhos talheres já tortos, de sentir os odores, cheiros e perfumes daquele que sempre foi o nosso lar.

 

   Há várias músicas que recorda as nossas casas e as voltas para elas, por motivos diversos ou apenas uma idealização. Uma delas é de Raul Sampaio, cantada por Roberto, "Meu Pequeno Cachoeiro" (recordo a casa onde eu morava...). Mas a que mais me emociona, embora eu não tenha vivido da mesma forma a aventura narrada na música, é "O Portão", de Roberto e Erasmo, aquela que ele começa dizendo que o cachorro lhe sorriu latindo. Mas a parte que acho um achado poético emocionante, é quando ele canta: "fui abrindo a porta devagar, mas deixei a luz entrar primeiro e todo o meu passado iluminei...". Um arraso.

 

   Quantos de nós não já voltamos para casa e vivenciamos cenas parecidas com a dessa canção?!!! Eu quando voltava para a casa do meu pai adorava tudo, até as manchas de umidade nas paredes. Infelizmente, como acontece com muita gente, a casa do meu pai não existe mais, virou estabelecimento comercial ou similar. Mas para mim ela virou sentimento. Ficou na minha mente e no meu coração. Quanto eu não daria para poder voltar àquela casa!  Para lá zanzar no seu corredor, dar chutes numa bola de borracha no muro, comer uma romã, brincar com nosso cachorro King, ficar na janela vendo a movimentada Japiassu, enfim, sentir aquele calor do lar dos meus pais, aquela zorra gostosa, os momentos lindos da minha infância e adolescência.

 

   Eu sei que os mais novos riem desse tipo de recordação. Mas um dia eles vão sentir a emoção da volta e principalmente a da saudade, afinal as emoções familiares mesmo desgastadas ainda são fortes.

 

   Apenas para fechar esta croniqueta e fugir um pouco do passado, nada como lembrar outra música que fala da volta, aquela volta tão bem definida no samba de Maurício Tapajós e Paulo Sérgio Pinheiro, interpretado por Simone que começa assim: "pode ir armando o coreto, e preparando aquele feijão preto que eu tô voltando...". Viva a volta.

Já escrevi várias crônicas sobre o meu amigo, irmão e camarada Rossini Moura. Destaco duas porque ele mesmo me disse que gostou: O Moleque da Rua da Linha e Encontro no Mustang. Ambas publicadas no Pesqueira Notícias e uma delas no Jornal de Arcoverde.

Quando escrevi essas crônicas fiz isso alegre, satisfeito, até me divertindo com os causos que estava contando sobre o amigo.

Mas hoje escrevo apenas uma croniqueta sobre ele, e faço isso com uma imensa tristeza, comoção e com as mãos trêmulas e os olhos marejando de lágrimas. É que Rossini partiu para o andar de cima. E fez isso, para usar um verso de uma música que gostava muito, montado num cavalo baio, num alazão da noite, cujo nome é Raio, Raio de Luar. Essa música, "Viagem", ele, sempre que nos encontrávamos,  solfejava uns versos, batendo numa caixinha de fósforo ou com o garfo e a faca num prato. Não era cantor, mas aquela sua voz de veludo deslanchava nessa música.

Rossini não precisa que se relembre sua biografia, ela está inscrita nas nossas mentes e corações. Rossini era a personificação da emoção da solidariedade. Era um cigano de Deus, adorava esse apelido, viveu uma vida bonita, linda, não amealhou bens materiais mas foi milionário naquilo que é mais importante: viver de verdade.

Partiu no danado do azalão, vai fazer uma falta imensa. Lembro do nosso último encontro, foi no antigo Sancho,fui com meu amigo Souza, estava apreensivo, pensei que fosse encontrar Rossini transtornado pela doença, Fiquei de queixo caído, encontrei Rossini quase reabilitado, rindo, contando causos, acompanhado de sua fiel escudeira, sua filha Rosana. Aquilo foi para mim uma lição de vida.

Sei que vou ficar triste muito tempo, mas quando penso no meu querido Cantinflas da Rua da Linha, sungando as calças sempre lá em baixo, alegre, com aquela voz aveludada e aquela verve arretada, começo a ficar melhor. Sim, porque na hora H Rossini não morreu, ele se encantou. Vou repetir uma frase que ele usava muito: estrela não morre, muda de lugar. E com certeza lá no Reino de Deus, depois de descer do Raio de Luar e ser  recepcionado por Dona Luizinha e Seu Maurício, ovacionado pelos amigos do céu, ele sem dúvida vai fazer sua estréia na Difusora do céu. Valeu, Rossini.

Rossini Moura

O grande sonho de Maria era casar com um cara rico. Não importava quem ele fosse, bastava que fosse abonado. Detestava viver naquela casinha do Alto do Peba. A casa era pequena e acanhada, não tinha nada a ver com os sonhos de grandeza de Maria. A sua família era pobre, o pai era pedreiro e a mãe costureira. Dos cinco filhos do casal ela era a mais velha. Tinha 18 anos e era muito bonita.

Os pais faziam de tudo para agradá-la. Era a menina dos seus olhos. Passavam dificuldades para educá-la, mesmo na rede pública. Ela, porém, tinha vergonha da família, jamais se referia a ela nas conversas com as colegas de escola e colégio. A sua maior frustração era não ter nascido rica. Invejava demais as moças ricas, mas ódio só sentia pelos pobres, inclusive pelo filho de um vizinho, um rapaz de sua idade que era apaixonado por ela. Ele, no entender dela, tinha um grande defeito: era pobre. Maria não cumprimentava ninguém na sua rua. Era tão impopular que ganhou o apelido de "Cocada de Sal".

Assim ia levando a vida, sempre sonhando alto com um bom partido e com uma imensa raiva roendo dentro de si, odiava até a própria família, até o dia que conheceu Marcos, um moço com pinta de rico que chegou na cidade, parente de um figurão do lugar. Ele logo colocou os olhos na morena bonita e pobre do Alto do Peba. E ela nele, claro.

O rapaz era simpático, falante e alinhado, mas o que Maria viu nele foi somente a possibilidade de obter a sua carta de alforria para sair do meio em que vivia e que achava indigno dela.

Do simples namoro na praça e no escurinho do cinema avançaram para o bate-coxa dos bailes e daí chegaram ao relax nos motéis. Marcos não prometeu a ela só a terra, mas também o céu e o mar. Os pais dela, após os cochichos da vizinhança, tentaram adverti-la com aqueles conselhos de praxe, mas isso entrou por um ouvido dela e saiu pelo outro. Ela queria casar e para isso faria o que Marcos quisesse. Ora, pensava, o cara tinha falado até em comprar as alianças e prometeu que depois do casamento levaria ela para morar numa big casa na beira da praia. Por que iria duvidar dele?

O figurão parente de Marcos ainda tentou demovê-la do seu caso com o rapaz, mas a moça achou que ele estava apenas querendo afastá-la porque ela era pobre.

A porrada aconteceu dois meses depois: Marcos deu no pé e não deixou sequer um mísero bilhete. Simplesmente se mandou sem mais aquela. Era um tremendo pilantra, um conquistador contumaz, um malandro inveterado. A pobre moça quando caiu na real ficou desesperada e ingeriu um tubo de comprimidos, mas levada, às pressas, para o hospital uma lavagem estomacal resolveu o problema. Ficou o outro problema: a gravidez. Tentou abortar ingerindo chás, mezinhas e toda sorte de raízes. Não deu certo, decidiu então a última cartada do desespero: o aborto numa papa anjo do final da rua. Não foi preciso...

Quem salvou Maria e o seu bebê foi o filho do vizinho, o rapaz que era apaixonado por ela. Ciente do caso, tamanho era o seu amor pela moça, que lhe propôs casamento assumindo a futura paternidade. Pragmática, sabia que os ventos da realidade haviam destruído o seu castelo de areia, ela aceitou a proposta do rapaz.

Casou de vestido branco, véu e grinalda, tudo nos trinques. O casamento foi no civil e na Igreja. Ela deu um chute no pau da barraca do seu orgulho e ficou humilde e popular. É, pasmem, quase feliz. Só não é totalmente feliz porque de vez em quando lhe bate uma certa tristeza, um banzo dos tempos dos sonhos, mas é coisa rápida, nada de sério, nada que resista a uma canção brega e à rotina dos afazeres domésticos. De uma coisa ela em certeza: o sonho que acalentava só acontece nas novelas da tevê.

 

Nesta vida é muito difícil a pessoa ser justa. Mais difícil ainda é ser independente. Não vou falar em idealismo porque isso - para a maioria - é que nem fruta braba.

Da mesma forma, em princípio, talvez seja impossível ser feliz, se bem que quando ouço aquela música Sonho Impossível, cantada por Bethânia, é uma versão do Chico Buarque, eu acho que é possível ser feliz, principalmente se ouvindo a música tomar umas e outras. Ri muito quando, recentemente, um amigo meu afirmou que só os burros são felizes porque não raciocinam, não entendem nada, aceitam passivamente as chicotadas. É claro que é um tremendo exagero, e uma injustiça para com esses animais que tanto ajudam o homem. Foi num deles, frise-se, que José e Maria fugiram levando o Menino Jesus.

Mas voltemos ao tema da felicidade. O que é a felicidade? Será ganhar na loteria? Será enricar roubando e sonegando impostos? Será feliz na vida que vence derrubando o próximo? Quem arma trapaças no breu das tocas? Quem quer o poder pelo poder, o poder para se locupletar, para perseguir? Será feliz quem utiliza ou incentiva a violência? Será feliz quem se satisfaz com a desgraça dos semelhantes? Ou será a felicidade um sonho impossível?

Em primeiro lugar, reconheço que ser feliz não é nada fácil. Realmente, em alguns casos, como disse Gonzaguinha no seu antológico samba, "depende de saúde e sorte". Mas, há também, a felicidade de ser útil, verdadeiro, gente. A felicidade de plantar uma árvore (isto no sentido mais amplo possível), criar decentemente os filhos, manter a família unida e ser respeitado por ela, ser fraterno e, enfim, a felicidade de cumprir a passagem na terra como um verdadeiro cristão e cidadão sem máculas, sem resquícios de amoralidade. Acredito piamente que a pessoa pode e deve ser feliz, mesmo não sendo rica, aliás, numa sociedade justa e ética, fraterna e cristã, não deve haver excluídos, nem ricos. Todos devem viver decentemente. Penso, pois, que viver uma vida honesta, otimista, amando seus irmãos, sendo solidário e, principalmente, sendo humilde (aceitando ser apenas um eterno aprendiz como diz o samba citado), é possível e deve ser, portanto, um ideal de vida. O que traz a infelicidade é a inveja, a ambição desmedida, o ódio, o apego aos bens materiais, o culto ao bezerro de ouro, o mau-caratismo em todos os seus níveis e nuances, a desonestidade, a prepotência e a violência.

Vivemos numa sociedade capitalista, vegetando dentro de uma filosofia fria que busca unicamente o lucro (não importa que seja o lucro desonesto) que premia os desonestos, acoberta os violentos, defende os cínicos, corteja os bajuladores, coloca debaixo do tapete o lixo das safadezas e, acima de tudo, promove a impunidade. E faz isso em prejuízo dos excluídos. Esta sociedade é perversa.

Apesar disso, mesmo inconformados, não se pode abrir mão da necessidade de buscar a felicidade. É preciso não ter medo de ser feliz. Odiar o mundo e as pessoas é colaborar com o sistema de capitalismo selvagem. É fazer o jogo dele. O ódio gratuito não constrói nada. Torcer para o circo pegar fogo é um absurdo. Não respeito quem faz a apologia do ódio total. É fascismo. Penso que é o amor que dá forças para lutar pelos oprimidos e para reformar a sociedade. Não se pode prescindir da emoção do amor para colecionar ódios. Isso só traz, repito, mais infelicidade. Quem faz sua parte conscientemente, aqueles que, mesmo em face das angústias e agruras, conseguem ser conscientes e fortes, os que lutam e endurecem as posições mas não perdem, como dizia  Che, a ternura jamais, estes são felizes. É preciso não perder esses sentimentos positivos: o amor, a ternura, a solidariedade. Eles são fundamentais para que o ser humano se complete.

O grande mal de muita gente é vegetar em vez de viver. É também pensar que a felicidade é uma ciência exata quando ela é um sentimento inerente ao ser humano. A felicidade é possível, mais: ela pode parecer estritamente particular, mas não é. Ninguém é feliz sozinho. A felicidade é coletiva até porque a obra do Criador foi realizada tendo em vista uma humanidade feliz. Já se disse que viver é perigoso. Parece que Fernando Pessoa num verso lindo afirmou: "Navegar é preciso, viver não é preciso". Só que vale a pena pagar o preço de viver com dignidade, bem como de navegar sempre buscando o porto da felicidade, mesmo que isso, espero que não seja o caso, seja um sonho impossível.

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