Crônicas & Reflexões

A campanha política realizada pelos diversos candidatos aqui em Pesqueira, pode não ter sido rica de dinheiro, mas no quesito lixo, foi de uma abundância sem precedentes. Para se ter uma idéia da sujeira, aqui no bairro do Prado, nesta segunda-feira, logo cedinho, passou uma equipe da limpeza urbana tirando o grosso do lixo. Mais tarde veio outra turma mais numerosa e melhor equipada que levou mais um montão de “santinhos”. Mas ainda existem restos de campanha espalhados por toda a cidade. Espera-se que a normalidade volte o mais breve possível.

 

Falar em sobras de campanha nos remete aos anos 90, quando este assunto foi tema de uma empolgante novela policial que teve um final triste e até hoje, o enredo não foi totalmente esclarecido. Até um presidente da república perdeu o mandato.

 

Ainda estamos sob o efeito da ressaca eleitoral e a essa altura tem muita gente se virando para quitar as contas. Tenho um amigo publicitário que está até rezando para que certo candidato lhe pague pelos trabalhos realizados.

 

Este primeiro turno nos trouxe algumas surpresas, a começar pelo crescimento de Marina, fator responsável pela necessidade de segundo turno, provocando além de surtos de insônia, o indesejado adiamento de vários banquetes.

 

A outra novidade ficou por conta da Justiça Eleitoral que gastou uma nota em campanha através da imprensa orientando o eleitor para, na hora de votar, levar além do título um documento oficial com foto. De supetão, o título foi descredenciado, desmoralizando solenemente a principal identidade do eleitor. E quem perdeu horas nas filas para tirar a segunda via desse documento, como ficou? Parece brincadeira!

 

Tivemos também uma palhaçada, com todo o respeito aos palhaços profissionais. Alguns políticos (palhaços amadores) exploraram a popularidade de Tiririca e o transformaram em puxador de votos, resultando na eleição de figurões de fichas duvidosas do maior colégio eleitoral do Brasil – São Paulo.

 

O Dr. Arraes, Marcos Freire, Ulisses Guimarães, Leonel Brizola, Mário Covas, Antônio Carlos Magalhães, Franco Montoro, Magalhães Pinto – verdadeiros puxadores de votos -, se ainda estivessem por aqui, certamente reprovariam esse expediente vergonhoso e acima de tudo, preocupante, porque eles que levavam a política a sério.

 

Espera-se que o efeito Tiririca não repita o fiasco que se deu em outras eleições, quando foram utilizados cantores e atores de grande popularidade com esse fim e os mesmos se constituíram em verdadeiras decepções como parlamentares.

Para surpresa de muitos, haverá segundo turno para presidente. Também teremos outra eleição para governador em oito Estados e no Distrito Federal. Devemos torcer para que o nível das campanhas melhore e que as promessas cedam lugar às propostas concretas de governo, sem ficção, pois o povo já mostrou que sabe tomar decisões e que nem sempre obedece àqueles que se julgam seus eternos guias e não se deixa induzir por pesquisas tendenciosas.

 

O primeiro turno serviu para desmoralizar os institutos de pesquisas e desmascarar os cientistas políticos. Há quem acredite que houve falhas nas pesquisas. Prefiro achar que tentaram levar o eleitor na conversa e não deu certo.

SÓ SEI QUE A DECISÃO FICOU PARA A PRORROGAÇÃO E NÃO HAVERÁ EMPATE.

Walter Jorge de Freitas

O brasileiro está habituado ouvir as quatro conjugações verbais durante o ano, segundo a época, evento ou acontecimento que estiver ocupando a grande mídia.
De janeiro a fevereiro, por causa do carnaval, o que mais ouvimos são os verbos sambar, brincar, frevar, beber, sair, desfilar, curtir e vai por aí afora.
De março a maio, devido à quaresma e às celebrações do Mês de Maria, escutamos muito as pessoas falarem em rezar, orar, ajudar, jejuar, doar, pregar, noivar, casar, etc. e tal.
Aí, chega junho. Só se fala em forrozar, festejar, paquerar, namorar, dançar, comer, soltar, queimar, tudo por causa do São João e do dia dos namorados.
Julho, por ser o mês das férias escolares, é tempo de descansar, viajar, folgar, passear, excursionar, conhecer. Nada de estudar.
Em ano eleitoral, entre os meses de agosto e outubro, os nossos ouvidos são “premiados” com verdadeiras pérolas saídas da boca dos políticos. Votar, fazer, crescer, mudar, trabalhar, ganhar, apoiar, empregar, investir, governar e realizar figuram entre as palavras que enfeitam as promessas de cunho meramente eleitoreiro.
Mas o rei de todos os verbos conjugados pela classe política pertence à segunda conjugação: PROMETER. Este, pelo fato de ser muito pronunciado, acaba resultando em um verbo da primeira conjugação, bem comum aos candidatos: ENGANAR.
Meu Deus, quanta cara de pau! E o mais grave é que sempre caímos na conversa e acabamos sendo enganados pela lábia recheada de falsas promessas. Como somos ingênuos!
Dá para acreditar em tantas promessas se o que mais se escuta dos governantes é que faltam verbas. Mas aí, eles enfeitam a conversa com as clássicas palavras: vamos projetar, viabilizar, disponibilizar, tentar e haja papo furado para justificar a não realização de obras prometidas em campanhas passadas ou esquecidas pelos adversários.
Querem um exemplo? As obras do PAC estão todas atrasadas. Existem estados em que não atingiram nem 10% (dez por cento) do que foi projetado. Qualquer dúvida em relação ao que estamos afirmando é só dar uma olhadinha nos jornais.
Se as nossas estradas estão, há mais de três décadas, em estado de abandono, a saúde pública uma calamidade, o sistema penitenciário totalmente obsoleto e deficitário, os serviços de esgotos, tratamento e distribuição de água muito aquém das reais necessidades da população, as cidades com baixo índice de ruas pavimentadas e as prefeituras falidas, como podemos esperar que tantos milagres sejam alcançados de um dia para o outro?
Calma gente, devagar com o andor. Senhores candidatos, sejam mais moderados nas promessas, pois o povo, segundo dizia Dom Helder Câmara, não é bobo não. “O Povo pensa”.
Mais cedo ou mais tarde, a mentira, por ter pernas curtas, vem à tona, e o estrago nas urnas pode ser proporcional ao número de promessas feitas apenas com a intenção de iludir o eleitor que por falta de líderes reais e representantes de verdade, se deixa enganar por frases bonitas e bem produzidas por marqueteiros que faturam verdadeiras fortunas.
E por falar em promessas, eu prometo não votar nos candidatos que prometem obras inviáveis, nos oportunistas e principalmente, nos gastadores e barulhentos. Os que gastam muito nas campanhas, certamente se forem eleitos, sabem como recuperar os investimentos feitos. Quanto aos que fazem muita zoada, não respeitando nem as escolas, há muito estão fora da minha lista. Já que ninguém toma providência, punindo esses infratores, eu mesmo puno.


 

Walter Jorge de Freitas

O dia 22 de agosto merece uma comemoração especial por parte dos pesqueirenses. Nesta data, há 91 anos, nasceu Nelson Antônio de Souza Valença.


Além de cidadão exemplar em todos os sentidos, e professor aposentado, seu Nelson é compositor, maestro, arranjador e teatrólogo.


Viveu a sua infância e parte da juventude, na aconchegante e boêmia cidade de São Bento do Uma, onde tirou proveito das noites enluaradas para realizar grandes e memoráveis serenatas, por ser um grande seresteiro e possuidor de uma voz afinadíssima.


Depois de prestar serviço militar, foi residir no Recife e lá, sob a orientação do consagrado maestro Nelson Ferreira, iniciou a sua carreira como cantor na Rádio Clube de Pernambuco. Infelizmente, uma cirurgia na garganta, interrompeu prematuramente essa atividade, pois segundo ele, a sua voz ficou alterada por causa da operação.
Voltou para Pesqueira e logo foi admitido para trabalhar como caixa da Fábrica Peixe. Foi também funcionário do Banco do Povo.
Depois, foi gerente da Rádio Difusora de Pesqueira. Suas aptidões musicais levaram a direção da empresa a transferi-lo para o Recife a fim atuar como orquestrador e arranjador na Rádio Jornal.


Foi ao Rio de Janeiro duas vezes a convite de Luiz Gonzaga, que por sinal, queria que seu Nelson fixasse residência na cidade maravilhosa, garantindo que lá ele teria como desenvolver o seu talento.
O nosso compositor maior recusou o chamado, alegando que no Rio de Janeiro, estaria impedido de realizar as caçadas de nambu que tanto apreciava.


O Rei do Baião gravou doze composições dele. Dentre elas, O Fole Roncou foi a que fez maior sucesso, chegando a ser gravada por outros renomados intérpretes, além de Gonzagão.


Por tudo que tem feito pela nossa cultura, o grande artista pesqueirense é merecedor das maiores homenagens por ter se dedicado com tanto amor a atividades pouco reconhecidas, ensinando, compartilhando e vivenciando os grandes momentos da vida cultural do nosso município.


Mesmo com todas as suas qualidades, ele nunca deixou de ser um cidadão simples que jamais se deixou levar pela vaidade.
Seu Nelson, sem sombra de dúvida, é a nossa maior expressão artística e por isto, faz jus ao respeito e à admiração de todos os que conhecem a sua obra. Pesqueira - sua terra - lhe deve muito.


Parabéns, seu Nelson. Muito obrigado pelo que o senhor tem realizado em favor das artes e da nossa cultura em geral. Pesqueira, agosto de 2010.


 

Walter Jorge de Freitas

Estava tentando terminar uma crônica sobre o grande instrumentista Paulo Moura, que nos deixou no início da semana que passou, quando recebi a triste notícia de que o nosso conterrâneo e também exímio instrumentista Bila, acabava de empreender a sua última viagem.

Dei uma paradinha no texto que estava escrevendo, desliguei o computador e fiquei meio acabrunhado, meditando sobre as coisas que acontecem e deixam a gente triste e sem ação, mesmo sabendo que não viemos para ficar e a viagem de volta não depende de nossa vontade. Deus é quem decide.

Elizardo de Oliveira Souza é o seu nome batismo. No meio artístico e nas rodas de choro era mais conhecido como Bila do Cavaco. De família de músicos, ainda garoto começou a se interessar pelo cavaquinho e o seu tio e padrinho João de Oliveira não se fez de rogado: deixou que ele fosse dando umas palhetadas no seu instrumento.

A sua brilhante carreira de músico começou oficialmente nos programas de auditório da Rádio Difusora de Pesqueira, tocando bateria na Orquestra Natambijara e cantando ao lado do irmão José de Oliveira Souza (Galego) boêmio por natureza.

Ainda bem jovens, ele e o irmão Galego mudaram-se para o Recife. A música encarregou-se de fazer a sua aproximação com Naná. O casamento veio em seguida e essa união das famílias Oliveira e Moraes, fez com que o gosto pela “arte das artes” aumentasse mais ainda e o resultado não poderia ser outro: os filhos do casal não fugiram à genética dos pais. Também respiram música em todos os instantes.

A partida prematura de Galego foi um duro golpe na alma dos familiares e amigos. Bila sofreu, mas não esmoreceu Nesse ínterim, surgiram o Conjunto Pernambucano de Choro e o Coral Edgard Moraes. A sua musicalidade, vinda do berço, foi se tornando cada vez mais forte. O tímido rapaz de Pesqueira vai ficando mais conhecido e solicitado.
Ao lado de Tôzinho, Tonhé, Marco César, que mais tarde se tornaria seu genro, esteve presente em inúmeros projetos ligados ao Chorinho.
Junto à esposa, filhos, irmã, cunhados, sobrinhos e demais amantes dos festejos de momo, participou de grandes eventos carnavalescos, contribuindo de forma marcante para a divulgação do Frevo de Bloco pelos palcos e ruas do Brasil.

E assim cresceu, amadureceu e viveu o pacato Bila, alegrando os encontros sociais, as serestas e as rodas de choro, até que o Criador resolveu chamá-lo de volta, a fim de juntar-se a Moacir, Josefa, Galego, Tonhé, Tôzinho, Sebastião Cândido, Zezinho de Quelé, Zé Duque, Eurivaldo Jatobá, Edgard Moraes, Canhoto da Paraíba, Paulo Moura, Jacaré do Cavaco, Venâncio, Liu do Trompete, Chiquinho Amaral, Capiba, Abel Bezerra, Luiz Guabiraba e mais umas duas dezenas de gênios da música.

Os chorões, com certeza já estão tratando da próxima roda de choro. O carnaval já entrou na pauta das reuniões. Edgard já escreveu a primeira parte de um novo frevo. Venâncio já se imagina regendo novamente a Natambijara, Capiba insiste para que Abel e Guabiraba toquem o seu “Trombone de Prata”, e assim, a vida continua, pois quem viveu aqui só para dar alegrias, ao se mudar para o outro plano, será recebido igualmente com festa, pois Deus não se descuida dos seus.
Até qualquer dia, amigo Bila.
 

 

Walter Jorge de Freitas

Numa madrugada de tempestades no Rio de Janeiro, nasce o menino que mais tarde seria poeta, advogado, diplomata, boêmio, compositor, sambista, censor cinematográfico e um grande campeão em casamentos, pois chegou a casar noves vezes. Mesmo assim, não se considerava um mulherengo, dizia ser “mulherólogo”.
Ainda garoto, começou a escrever versos. Aos dezessete anos, ingressou na Faculdade Nacional de Direito, onde conheceu personalidades importantes do meio intelectual e jurídico.
Concluiu o curso de Direito em 1933, ano em que lançou o seu primeiro livro de poemas “O Caminho para a Distância”.
Atuou pouco como advogado, tendo ingressado no Ministério da Educação, onde exerceu o cargo de censor cinematográfico. Em 1938, ganhou uma bolsa e mudou-se para a Inglaterra a fim de estudar língua e literatura inglesa. Casou-se por procuração com Beatriz Azevedo de Melo. Em 1939, devido ao início da Segunda Guerra, volta ao Brasil.
Morou um bom tempo em São Paulo, depois voltou ao Rio de Janeiro. A poesia facilitou a sua aproximação com Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Mário de Andrade e Cecília Meireles.
A carreira diplomática iniciada em 1943 motivou a sua saída do Brasil. Morou e trabalhou em vários países sem, contudo, deixar a atividade literária.
No começo dos anos 60, começa a compor em parceria com Baden Powell, Carlos, Lira, João Gilberto, Tom Jobim e Pixinguinha. Conseguia conciliar a sua vida de diplomata com atividades ligadas à música, ao cinema, ao teatro e à poesia, sem jamais deixar de ser boêmio. Foi exonerado do serviço diplomático pelo governo militar em 1969. Casou com Cristina Gurjão.
Em 1970, conheceu e iniciou sua parceria musical com Toquinho. Além de parceiros, ficaram grandes amigos. Fizeram várias excursões.
Em 1979, voltando de uma viagem à Europa, sofre um derrame cerebral a bordo de um avião. Um edema pulmonar aos 67 anos pôs fim à sua agitada vida. Estava em casa com sua mulher Gilda Mattoso e Toquinho, com quem escolhia canções para a gravação de um LP que se chamaria Arca de Noé.
Bem perto de Vinícius morrer, um repórter perguntou se ele tinha medo da morte. Ele respondeu: “Não, meu filho, eu estou com saudade da vida”. Este era o Poetinha, como carinhosamente o tratavam.            De sua parceria com grandes nomes da MPB, resultaram belas composições, com destaque para as que foram feitas com Toquinho e Antônio Carlos Jobim. A sua paixão pelas mulheres, fez com que se casasse nove vezes.
E assim, viveu intensamente o amor, a música, a poesia e a boêmia, pois não dispensava um bom uísque nos principais momentos de sua vida. Nas suas canções, sempre cantou o amor, como as que seguem: Chega de Saudade, Garota de Ipanema, Luciana, Modinha, Serenata do Adeus, A Felicidade, Meditação, Brigas Nunca Mais, Na Hora do Adeus, Vida Bela e mais algumas centenas.

 

Walter Jorge de Freitas

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