Crônicas & Reflexões

O Bom Dia Brasil, informativo da Rede Globo, vem mostrando em consistentes reportagens, um problema crucial que está atingindo as grandes e pequenas cidades brasileiras: O lixo urbano.

O que nos surpreende é que a situação está ficando caótica até em algumas cidades de estados do Sul e Sudeste do Brasil, cujos habitantes são teoricamente mais civilizados de que os do restante do país. Até os tradicionais pontos turísticos daquelas regiões estão sofrendo com o lixo.

Quem lê os jornais da capital do nosso estado deve estar farto de notícias sobre o acúmulo de lixo nas vias públicas, principalmente no centro da cidade que muitos apelidam de Veneza Brasileira.

Todos nós sabemos que a limpeza urbana depende de um bom serviço de varredura e coleta do lixo e da colaboração e educação dos habitantes.

Saindo das metrópoles e focalizando a nossa Pesqueira, verificamos que há tempo a nossa cidade vem sofrendo com a deficiência da limpeza urbana e com a falta de educação ou quem sabe, um pouco de má vontade de uma parcela de seus habitantes. Gostaria muito de estar errado, nesta última hipótese.

E como o lixo tem muito a ver com a saúde pública e a dengue está avançando assustadoramente em algumas cidades, seria bom que as secretarias de saúde do estado e do município se articulassem mais ainda e intensificassem o trabalho de conscientização sobre os riscos se conviver com o lixo, que por sua vez, atrai insetos e estes, trazem doenças para a população.

Sugerimos mais uma vez que a prefeitura procure melhorar a limpeza urbana nas ruas onde o serviço já existe e viabilize a sua expansão para os bairros novos que mesmo contando com a coleta do lixo, ainda não se beneficiam da limpeza, tarefa esta que fica a cargo dos moradores. Só que muitos ou não têm consciência da gravidade dos problemas que nos cercam, ou simplesmente deixam pra lá.

Por outro lado, é imperiosa a realização de um trabalho educativo junto à população, pois infelizmente, quem anda pelas nossas ruas, não tem muita dificuldade para comprovar o que vimos insistentemente combatendo, sem outros interesses menores, a não ser, ver a nossa cidade limpa e bem cuidada pelos seus moradores e pelo poder público.

Para finalizar, humildemente lembramos que Pesqueira cresceu e não pode continuar sendo administrada com métodos utilizados dez ou vinte anos atrás.

Outro problema carente de estudos: os terrenos baldios na área urbana, em sua maioria, com sintomas de abandono. Quem cuida deles? O município precisa urgentemente de um Código de Posturas atualizado e eficaz.

E por falar em Código de Posturas, no final do ano passado, indaguei de dois vereadores se eles sabiam da existência de algum projeto pertinente em tramitação ou estudo na Câmara, eles disseram que desconheciam.

No início deste mês, vi jovens munidos de prancheta e fita métrica fazendo medição e anotações. Isto seria o sinal de que algo de novo está por acontecer? Vamos aguardar e torcer para que a resposta seja positiva.

 

Passados o corre-corre do final de ano e a monotonia de janeiro, começa a cair a ficha de que estamos em pleno ano novo e fevereiro está chegando com gosto de gás.

Quem é de Pesqueira, tem logo no início do mês, a festa de SANT’ÁGUEDA, padroeira do município, que mesmo não sendo mais festejada como antigamente, serve para que os fiéis renovem as suas demonstrações de fé. Outros aproveitam para rever parentes e amigos.

Falar em fevereiro e carnaval leva-nos a um samba feito no início da década de 70 por Wando e Nilo Amaro: “O Importante é Ser Fevereiro”. E é mesmo!

Aliás, temos que reconhecer que em fevereiro ocorre a culminância do carnaval, uma vez que a folia começa bem antes das datas oficiais estabelecidas pelo calendário.

Sem querer correr o risco de afirmar que os carnavais que se brincava nos anos 50, 60 e 70 eram melhores de que os atuais, diríamos apenas que eram bem diferentes e quem era chegado à folia podia escolher o horário e a modalidade que mais lhe conviesse.

Quem gostava da agitação, do banho nas ruas, do entrudo, de seguir os blocos, as troças e brincadeiras afins, tinha para onde ir tanto de manhã, como à tarde.

Por outro lado, se o folião era do tipo mais quieto e romântico, a melhor pedida era comparecer aos bailes nos clubes, onde normalmente havia muita animação.

Esta opção custava uns trocados a mais, porque os clubes não dispunham de grandes salões e isto tornava o preço das mesas e das senhas individuais um pouco salgadas para o bolso do brincante. Era também a época ideal para os músicos ganharem uma graninha extra.

Mas compensava participar. Nos clubes dos Radicais e dos 50, por exemplo, tocavam boas orquestras. No repertório não podiam faltar os frevos de rua: Mordido, Fogão, Vassourinhas, Baba de Moça, Três da Tarde, Lágrimas de Folião, Corisco e tantos outros, que eram intercalados por frevos cantados (canção), sendo os mais interpretados Voltei Recife, Boneca, É Frevo Meu Bem, Você Está Sozinha, Passei no Vestibular, Trombone de Prata, A Lua Disse, Segure o Seu Homem, Menina de Hoje, Tá Faltando Alguém e outras jóias.

Para abrandar o calor e o cansaço dos músicos e dos foliões, as marchinhas e os frevos de bloco se constituíam na melhor alternativa. E haja coração para ouvir, cantar e se deleitar com A Jardineira, Evocação nº 1, Bandeira Branca, Máscara Negra, Pó de Mico, O Teu Cabelo Não Nega, A Cabeleira do Zezé, Saca Rolha, Cachaça, Ressaca, Cidade Maravilhosa, A Dor de Uma Saudade, Eu Não Vou, Vão Me Levando, Tem Nego Bebo Aí e Turma do Funil.

É evidente que as pessoas que hoje brincam o carnaval, não conhecem a maioria das músicas citadas nesse comentário recheado de saudosismo. Mas, fazer o quê? Cada um conta a história de acordo com o que vivenciou.

Os meus carnavais foram assim, pois nos tempos de criança, mesmo sem participar, presenciei algumas brincadeiras e a memória registrou para sempre a beleza das fantasias e a poesia das marchinhas cantadas pelos componentes dos blocos líricos, na maior demonstração de romantismo e espontaneidade, coisas que quase não se vê mais nos carnavais que se brinca atualmente. Hoje, infelizmente, prevalecem o barulho dos trios elétricos e as “coisas” cantadas que pouco ou nada têm a ver com música carnavalesca.

Mesmo assim, nem tudo está perdido. Ainda dá para tirar proveito e se divertir nos carnavais atuais, pois apesar de bem menos do que deveriam, os seus organizadores estão aos poucos, fazendo com que as tradições voltem a fazer parte dos festejos de momo.

E VIVA O ZÉ PEREIRA/ POIS A NINGUÉM FAZ MAL
VIVA A BEBEDEIRA/ NOS DIAS DE CARNAVAL.
 

Ainda lembro-me do primeiro ano que fui adotado por Lulu no Carnaval. Amor ao primeiro encontro, ao primeiro passo. E logo percebi que não era só eu, tinham mais outros tantos irmãos que também, no carnaval, foram adotados por esse pai Lulu.

Meio envergonhado, esperei o bloco na Avenida Adalberto Sobral, em casa de vó  Izaura, quando de longe avistei o estandarte. Eram os meninos de Lulu chegando. Chamando seus filhos do carnaval.

Foi emoção demais! E, ao toque de frevos rasgados, na marchinha do vai, vai, vai, decidi que ser menino de Lulu era bom, mesmo que de ano em ano, de carnaval em carnaval.

 

Convidei-me e entrei. Ainda meio acanhado, fui deixando de lado a perna  dura que tinha, olhando sempre do lado pra copiar a marchinha.
Vai chegando o chafariz! Olha o pipa esperando! Aquele banho esquenta ainda mais a alma dos  foliões. E eu lá, no meio de todo mundo, esperando o jato d’água. Pra lavar a minha alma.

Vem chegando a tenente. Olha o mar de gente! Lá os filhos se multiplicam. Na alegria do Carnaval, todo mundo é igual.


Vamos completar a volta. Ruim é a volta da terça-feira sabendo que quarta de cinzas vai chegar e só no próximo ano todo trajeto vou pular.

Estou na rua da medalha. Chegando ao QG do meu pai. Mais um banho de pipa para alegrar. Ao som de vassourinha vi muita gente pular.

E  foi  assim por vários anos nos dias de Carnaval. Mesmo nosso pai Lulu estando lá no céu. Conduzindo seus filhos pelas ruas do  bairro do prado alegrando por demais  nosso carnaval. Que em lugar algum no Brasil tem igual.

 

Desde os tempos de moleque fiz o roteiro do mestre Chiquinho, nosso maior arquiteto carnavalesco, mestre da festa do povo, artista que deixou um legado infinito para todas as gerações da minha amada Pesqueira. O toque do trompete sempre intimava todos os pesqueirenses e visitantes, que se tornavam súditos, a saudar a Majestade Lira da Tarde, a cair no frevo, esquecer todos os problemas, mágoas e desamores. No corre-corre contra o tempo, ao entrar rua  Barão de Cimbres e avistar o seu  estandarte fremente, tinha a certeza que  um tufão de frevo estava a se formar, e o carnaval do Lira iria começar a transformar as pessoas. Um pulo pra cá, um pulo pra lá, abraços e sorrisos, era o Lira transfigurando os mais sisudos  e chatos do cotidiano em doces foliões da alegria.

Lira da tarde


 

Porém, em plena contagem regressiva para o carnaval de 2009 fui surpreendido com a notícia de que o Lira não iria desfilar no carnaval. Não acreditei! Apesar de saber que o amado bloco não saiu no domingo e segunda-feira, saí de Garanhuns na terça de carnaval com a esperança de fazer o roteiro sagrado com a multidão. No aquecimento da Barão de Cimbres, tomaria duas cervejas; na Eulampio Cordeiro, um abraço num amigo distante; na 13 de maio, suado e já com cheiro de povo, viria os Neves  a admirar a multidão; no compasso,  na Zeferino Galvão, soltaria o corpo no ritmo do tarô e do bombo; mais um gole de cerveja para subir a Anísio Galvão, mela-mela e alegria com os desdentados; já na Cardeal Arcoverde, a reta do frevo saudaria com  a alegria o palácio episcopal;  o sol começando a se esconder na Dom José Lopes, soltaria a voz: é o Lira, é o Lira , é o Lira da tarde a todo vapor.

Que nada! A notícia era verdadeira mesmo. Não teve Lira. Faltou a alegria do povo. O carnaval não foi o mesmo de carnavais passados. O nó da frustração tomou conta da minha goela e a vontade de chorar me venceu no quarto de hotel. O Lira não veio com sua alegria, não caí no frevo, não esqueci os problemas, mágoas e desamores.

Mas como dizem os mais velhos: depois de uma trovoada  sempre haverá um lindo dia de sol. Que este ano, na sua volta triunfal, o Lira brilhe de novo, fazendo o povão delirar de alegria nas ladeiras de nossa cidade. Que tua apresentação seja mágica e se torne inesquecível na memória do povo. No aquecimento na Barão de Cimbres, em vez de duas, serão quatro cervejas; na Eulampio Cordeiro saudarei todos amigos que avistar; na 13 de Maio, verei a alegria dos Neves, mas com as mãos erguidas ao céus agradecerei a Deus por estar no meio do povão;  na Zeferino e Anísio Galvão, o frevo de Sergio Amaral comandará minhas emoções; no grande palco que é a Dom José Lopes, apoteose total. Pernas bambas, corpo suado, sorriso total, meu, seu e de todos.

Chiquinho, onde estiver, com certeza estar feliz, pois a Majestade Lira voltará, voltará para o povo, para nunca mais deixar de sair de novo.

 

O Frevo pernambucano tem uma característica bastante contraditória no conteúdo de sua letra e melodia. Como podemos entender e aceitar que um gênero musical que serve para levar os foliões à loucura nas ruas e nos clubes, onde se esbaldam de alegria, tenha a tristeza, a melancolia, a solidão, e a saudade como temas principais?

Apesar de já ter lido muita coisa sobre esse estranho fenômeno e até o fato de já ter ultrapassado a marca de 50 carnavais, ainda não consegui explicações convincentes para esse aspecto curioso que envolve o nosso principal ritmo carnavalesco.

Não sinto o menor constrangimento em dizer que nos meus tempos de jovem sonhador, quando os carnavais se constituíam em festas onde o romantismo aflorava e contaminava os foliões, sentia arrepios e os olhos marejavam ao ouvir os frevos dos irmãos Valença, Nelson Ferreira e Capiba, cantados por Claudionor Germano, Expedito Baracho, Ângela Maria, Francisco Carlos e Nelson Gonçalves, nas rádios e no Serviço de Alto Falante de Pesqueira (S.A.P.)

Quem se considerar blindado e inatingível pela forte dose de sentimentalismo existente nas letras e melodias dos frevos, é só colocar um disco na radiola, ouvir e prestar atenção nas letras, para logo constatar que não estou exagerando.

Aproveito, inclusive, a oportunidade, para sugerir alguns para que os interessados possam conferir a veracidade do que estou afirmando.

FREVOS DE BLOCO E CANÇÃO:

Sorri Pierrô e Cabelos Brancos de Nelson Ferreira. Mandarim, Saudade e O Teu Lencinho, dos irmãos Valença. Frevo da Solidão, Você Faz Que Não Sabe, Trombone de Prata e OH! Bela, de Capiba. A Dor de Uma Saudade, de Edgard Moraes. Voltei Recife, É de Fazer Chorar e Novamente, de Luiz Bandeira. Frevo Nº 1, de Antônio Maria. Você Está Sozinha, de Gildo Branco e Waldemar de Oliveira. Você Gostou de Mim e Último Regresso, de Getúlio Cavalcanti. Boneca e Ingratidão, de José Menezes.

FREVOS DE RUA:

Estes não possuem letra. São executados por orquestras e têm andamento mais rápido. Mas nem isto lhes tirou a beleza e a carga sentimental, pois suas melodias foram geralmente compostas por grandes maestros que capricharam nas notas e causam a sensação de uma flechada no coração, quando os ouvimos.

Querem alguns exemplos? É só escutar Lágrimas de Folião e Retalhos de Saudade de autoria de Levino Ferreira. Duas Épocas e Recordando a Tabajara, de Édson Rodrigues. Fogão, de Sérgio Lisboa. Mordido, de Alcides Leão. Cocada, Corisco, Lampião e Pilão Deitado (nomes de cangaceiros) compostos pelo paraibano Lourival Oliveira.

E, finalmente, o hino do nosso carnaval: VASSOURINHAS (instrumental) de Mathias da Rocha.

Na certeza de que deixei de enumerar dezenas de pérolas do nosso cancioneiro carnavalesco, peço desculpas pela ousadia e pela omissão, pois isto é apenas uma tentativa de expor a minha modesta opinião na condição de admirador do autêntico FREVO PERNAMBUCANO, cujo ritmo é capaz de contagiar até uma criança de braço, fato já presenciado no meu estabelecimento comercial.

 

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