Estava tentando terminar uma crônica sobre o grande instrumentista Paulo Moura, que nos deixou no início da semana que passou, quando recebi a triste notícia de que o nosso conterrâneo e também exímio instrumentista Bila, acabava de empreender a sua última viagem.

Dei uma paradinha no texto que estava escrevendo, desliguei o computador e fiquei meio acabrunhado, meditando sobre as coisas que acontecem e deixam a gente triste e sem ação, mesmo sabendo que não viemos para ficar e a viagem de volta não depende de nossa vontade. Deus é quem decide.

Elizardo de Oliveira Souza é o seu nome batismo. No meio artístico e nas rodas de choro era mais conhecido como Bila do Cavaco. De família de músicos, ainda garoto começou a se interessar pelo cavaquinho e o seu tio e padrinho João de Oliveira não se fez de rogado: deixou que ele fosse dando umas palhetadas no seu instrumento.

A sua brilhante carreira de músico começou oficialmente nos programas de auditório da Rádio Difusora de Pesqueira, tocando bateria na Orquestra Natambijara e cantando ao lado do irmão José de Oliveira Souza (Galego) boêmio por natureza.

Ainda bem jovens, ele e o irmão Galego mudaram-se para o Recife. A música encarregou-se de fazer a sua aproximação com Naná. O casamento veio em seguida e essa união das famílias Oliveira e Moraes, fez com que o gosto pela “arte das artes” aumentasse mais ainda e o resultado não poderia ser outro: os filhos do casal não fugiram à genética dos pais. Também respiram música em todos os instantes.

A partida prematura de Galego foi um duro golpe na alma dos familiares e amigos. Bila sofreu, mas não esmoreceu Nesse ínterim, surgiram o Conjunto Pernambucano de Choro e o Coral Edgard Moraes. A sua musicalidade, vinda do berço, foi se tornando cada vez mais forte. O tímido rapaz de Pesqueira vai ficando mais conhecido e solicitado.
Ao lado de Tôzinho, Tonhé, Marco César, que mais tarde se tornaria seu genro, esteve presente em inúmeros projetos ligados ao Chorinho.
Junto à esposa, filhos, irmã, cunhados, sobrinhos e demais amantes dos festejos de momo, participou de grandes eventos carnavalescos, contribuindo de forma marcante para a divulgação do Frevo de Bloco pelos palcos e ruas do Brasil.

E assim cresceu, amadureceu e viveu o pacato Bila, alegrando os encontros sociais, as serestas e as rodas de choro, até que o Criador resolveu chamá-lo de volta, a fim de juntar-se a Moacir, Josefa, Galego, Tonhé, Tôzinho, Sebastião Cândido, Zezinho de Quelé, Zé Duque, Eurivaldo Jatobá, Edgard Moraes, Canhoto da Paraíba, Paulo Moura, Jacaré do Cavaco, Venâncio, Liu do Trompete, Chiquinho Amaral, Capiba, Abel Bezerra, Luiz Guabiraba e mais umas duas dezenas de gênios da música.

Os chorões, com certeza já estão tratando da próxima roda de choro. O carnaval já entrou na pauta das reuniões. Edgard já escreveu a primeira parte de um novo frevo. Venâncio já se imagina regendo novamente a Natambijara, Capiba insiste para que Abel e Guabiraba toquem o seu “Trombone de Prata”, e assim, a vida continua, pois quem viveu aqui só para dar alegrias, ao se mudar para o outro plano, será recebido igualmente com festa, pois Deus não se descuida dos seus.
Até qualquer dia, amigo Bila.
 

 

Walter Jorge de Freitas


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